VPF GALLERY Presents
Ana Cardoso: SANS IMAGE
25 Sep – 8 Nov 2008
for immediate release
“What does Rousseau say without saying, see without seeing? That replacement has always already begun; that imitation, principle of art, has always already interrupted natural plenitude; that, having to be a discourse, it has always already broached presence in difference; that in Nature it is always that which supplies Nature’s lack, a voice that is replaced by the voice of Nature.”
Falar sobre imagens nunca é fácil. As palavras e as imagens são inimigos íntimos. No início eram o mesmo, as palavras eram imagens. Símbolos. Mas essa unidade teológica do objecto material com o seu correspondente transcendental foi violentamente interrompida com a invenção do alfabeto. Depois disso mais nada foi o mesmo. Platão ainda fez uma tentativa de reconciliação ao escolher “eidos”, literalmente a silhueta exterior que um objecto oferece aos olhos, para significar “ideia”. Infelizmente, qualquer mudança que se faça ao nível da supra-estrutura nunca afecta a infra-estrutura. Mas Platão não era versado em marxismo, e tudo o que conseguiu foi distorcer a anterior unidade simbólica numa relação entre aparência e essência. A história dessa relação é a história da arte. Todas as imagens que se inscrevem dentro dessa relação fazem parte da história da arte e descrevem todas as formas possíveis que esta pode assumir. Fora da história da arte fica o resíduo da anterior unidade, aquilo a que a antropologia chama crenças animistas e a que a psicanálise chama o estado narcísico de omnipresença do pensamento; bonecos de vudu e kitsch cultural. Para nós, que sabemos perfeitamente que um significante não é idêntico ao objecto que significa, excepto quando ocasionalmente escrevemos o nome de alguém num banco de jardim, é também evidente que nenhuma palavra ou imagem tem algum poder sobre aquilo a que se refere. Excepto obviamente o facto de o representar. Naturalmente esta nova World Order estabelece uma hierarquia na qual as imagens são sempre o nível mais baixo. Afinal, conhecer significa possuir mesmo se essa posse for uma posse imaterial, como uma tomada de posse da consciência. Assim, em arte normalmente a questão não se coloca tanto entre produzir imagens que se possam analisar discursivamente mas em produzir imagens que contenham já o seu próprio subtexto. Por outras palavras imagens cuja função é a de evocar um discurso, anulando-se subsequentemente como imagens para que esse discurso possa tomar o palco. Todas essas imagens escondem no entanto um acordo secreto com o seu público, um pacto subentendido de se referirem às suas expectativas. Essas imagens não têm nesse sentido um destino como imagens, se como “destino das imagens” entendermos a criação de discenso, a interrupção da ordem discursiva e dos protocolos de representação.
I will have spent my life trying to understand the function of remembering, which is not the opposite of forgetting, but rather its lining. We do not remember, we rewrite memory much as history is rewritten.
Diz o narrador fictício de Sans Soleil. Em Sans Image Ana Cardoso, tentando compreender a função da representação, encontra precisamente uma possibilidade de abstracção que não é o oposto de representar mas sim o seu substrato. Através dessas imagens negativas podemos aceder ao negativo da produção de sentido. Não ao ponto onde todo o sentido é negado mas onde este é a cada instante reescrito e sempre se recusa a estabilizar.
Ana Teixeira Pinto
Berlim, Setembro 2008
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A relação com Sans Soleil é incontornável. A exposição chama-se Sans Image que, livremente retirado do livro "Le Destin des Images" de Jaques Ranciere explica para mim um conceito e atitude em relação às imagens. As pinturas na exposição têm diferentes direcções e a sua instalação tem uma importância espacial e não convencional.
Há uma imagem roubada a Courbet, que é um fantasma da imagem original – 2 mulheres deitadas numa cama; uma paisagem usa a ideia de a Abstracção ser sempre uma imagem; há pinturas aparentemente concretas ou abstractas que contornam ou ligam imagens, representações residuais.
Não consigo definir uma imagem porque algumas hipnotizam e o significado é uma superficie opaca.
Sans Image, Conteúdo Negativo
"SANS IMAGE", SÉRIE EM PROGRESSO, INCLUI TODAS AS IMAGENS COM QUE TRABALHO. REPRESENTAÇÃO E ABSTRACÇÃO SÃO NÃO IMAGENS.
Fazer assegura um ponto vital. Por meio da improvisação, transmutação e disfuncionalidade da imagem, a pintura cria um lugar indefinido onde a sobrecarga de informação exclui o pensamento linear. O que é a imagem? Qual o conteúdo? A abstracção é um estado mental, uma forma de expandir categorias genéricas.
Uso o arquivo de possibilidades da História da Arte. Mas a "colagem" auto-referencial, a identidade que ensaia não-imagens, desinforma. O fazer e refazer despe as imagens de conteúdos pré-definidos, coloca-as numa situação de carimbo, alinhamento e presença.
"Sans Image" aplica-se a qualquer imagem de conteúdo negado - processo meditativo que revela uma imagem fantasma.
Esta negação assume diferentes formas através da interpretação de textos, ideias ou momentos históricos. Interessa-me a mistura do construtivismo com a arte pop, ou da pintura europeia do final do séc. 19 com a estética punk. Se o conteúdo negativo é ao mesmo tempo "demasiado ruído sobre nada", é também uma chave para o panorama da pintura actual, uma experiência ultra-complexa, onde o conteúdo é apenas o que não conhecemos, o espaço residual deixado pela inteligência. O desafio é uma imagem não-representável, simulacro ou tensão porosa e abrangente. Neste momento, ver a reprodução de uma paisagem equivale eventualmente a olhar para riscas pintadas. Ver é um jogo social, representação em tempo real, subordinado ao contexto.
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An Interview
Int: Why do you call this show (Sans Image) a group show since it is in fact a one-person exhibition?
AC: Because images are appropriated, they're briefly mine, maybe never. And soon never again... they are randomly taken from History and then back to its tracks.
Int: And, why Sans Image? Are you driven towards the anonymous?
AC: Not really… Sans Image refers to a lack of reference and a frustration in pinning down the world through images, our substitute for language and a potential place for creativity… if/when it happens.
It is a show about nothing, actually. A meditation…
Int: On the impossibility of clearly expressing oneself…
AC: Well, more or less. The impossibility of not being able to express oneself through the boring task of coherence…
Int: I see…
AC: I think images, like most families, are dysfunctional although they gather like particles – it is a mystery.
Int: And you are also attracted by this magnetism.
AC: I am. I see painting through this perspective – images have different dynamics, like quantum physics! I am attracted to images I don’t quite understand – images that devolve some mystery or just strangely relate to your actual thoughts.
Int: Thank you!
AC: My pleasure.
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ANA CARDOSO: SANS IMAGE
VPF Cream Art Gallery, Lisboa
25 Sep – 8 Nov 2008